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Duas histórias correm paralelas, ambas com 11 capítulos numerados de 1 a 11. Numa, dois amigos conversam pelo telefone sobre a dificuldade de o protagonista publicar seus romances. Eugênio Clarão escreveu muitas histórias, "quase tanto quanto Balzac", ele diz a seu amigo Josué. Ao longo das conversas descobrimos que Josué vem intermediando a relação de Eugênio com editoras do Brasil e da Inglaterra, visando a publicação dos romances. Somos brindados com pareceres de avaliadores diversos, todos elogiando a qualidade literária dos textos mas, ao final, não recomendando a publicação pelas editoras. Um porque julga que o romance, apesar do valor literário, é "hermético"; outro critica sua linguagem "rebuscada", outro considera a história pouco atraente para o grande público etc.. Por meio dos pareceres entramos no mundo literário de Eugênio, sua inventividade e abertura, em tudo antípodas de sua reclusão num quarto soturno no interior do Brasil. A história tem um final surpreendente, porque só ali descobrimos que foi alinhavada pela traição,A história paralela também traz um romancista que nunca publicou seus muitos romances, algo que descobrimos apenas ao final. Ao contrário da outra história, tem um narrador, que conta o intenso encontro casual entre o personagem principal (Marco Antônio Pontual) e a filha de um amigo de infância (Alma Flor). Provocado por um acidente automobilístico numa cidade do interior do Brasil, o encontro traz à memória dos dois fragmentos de vida que eles não sabiam que compartilhavam, coisas que, a custo, Alma Flor consegue arrancar à alma dilacerada de Marco Antônio no restaurante para onde se dirigem depois de se desvencilharem da burocracia policial do pós-acidente. Exercício de rigor literário do narrador, que se coloca do ponto de vista de Marco Antônio e vive suas angústias, travas, desejos e recalques enquanto Alma Flor se abre para ele, é uma história de doação, generosidade e frustração, como algumas que Eugênio Clarão talvez tenha escrito. Ao final não sabemos qual dos dois escreveu qual história, por isso a imagem das mãos de Escher, uma desenhando a outra. A arte como ilusão, ou como ilusionismo. Ou como uma representação infiel, mas misteriosa e sedutora, da vida.
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